A ORIGINALIDADE NA ARTE ( PARTICULARMENTE NA LITERATURA MAS NÃO SÓ! )


E
m uma conversa informal com uma colega professora de português tocamos no assunto originalidade na Arte com a seguinte ênfase: Há na verdade a possibilidade de alguém, no caso de nossa eventual abordagem, um artista, mais especificamente um escritor ser realmente original?

Na nossa momentânea elucubração, sem desenvolver uma dissertação ou tese acabada, chegamos a conclusão que sim e que não, ao que já explico.

Tomemos o "não" como primeira grande possibilidade: como seres humanos somos seres sociais e só nos humanizamos ( ou desumanizamos ) em contato com outros seres humanos. A nossa aquisição tecnológica bem como todas as nossas projeções filosóficas  só acontecem em cima ou tendo por substrato elementos, percepções e projeções anteriores às nossas próprias. Ou seja: todo desenvolvimento humano é um movimento, apenas um passo, as vezes bem pequeno e que provoca um novo impulso, um avanço ou não, apenas mais um marco numa linha no tempo. As vezes este novo passo é tão decisivo que não é mais superado ou substituído.

Os exemplos são vários: o bem sucedido cinto de segurança é uma invenção feita a partir dos carroções na antiga colônia inglesa onde hoje são os Estados Unidos da América. Depois de muitas mortes de pessoas caídas ou lançadas das carroças após ela bater em um apedra ou passar por um buraco. Foi tão genial que apenas mudanças no material, localização e conforto foram implementadas.


Também as superfícies móveis e de controle em um aeroplano, desde pequenos aviões até os mais imensos também não sofreram mudanças de paradigmas substanciais, permanecendo basicamente as mesmas que no início do desenvolvimento aeronáutico.

Na geometria idem, o que foi conseguido no início de seu desenvolvimento permanece inalterado e praticamente eficiente até os dias de hoje. Os exemplos são vários e praticamente incontáveis e podem ser listados exaustivamente. A pergunta que se coloca é a seguinte: os primeiros inventores ou as primeiras descobertas foram realmente originais?

Uma outra possibilidade é que várias pessoas, ou pelo menos mais de uma, em uma mesma ocasião ou época façam as mesmas descobertas. Algumas invenções hoje são oficialmente reconhecidas como tendo mais de um inventor, é o caso da invenção da fotografia, a invenção do avião ou pelo menos seu desenvolvimento, a própria Teoria da Evolução, entre outros.

Entretanto é verdade que todas as grandes invenções e aquisições intelectuais humanas não são ou não foram cem por cento originais, vindas do nada da cabeça ou mente brilhante de um só autor. É bem possível que a famosa Teoria da Relatividade de Albert Einstein tenha sido inspirada por uma frase ou uma elucubração de um de seus professores em um momento de desabafo filosófico ou de livre imaginação. Não há provas mas pode ser seriamente possível.

Desta forma uma frase, uma interrogação, uma provocação pode ser muito bem um start, um boot, um impulso importante para uma coisa nova, embora não tão nova assim. Entretanto o senso comum dita que parece que o mais comum e o mais plausível é que haja autores de ideias originais e ideias cem por cento originais.

Na literatura particularmente ( depois falarei da pintura e do desenho, talvez em outra postagem ) há elementos que dificultam ou até impossibilitam a afirmação que um escritor possa ser realmente "original":

O primeiro elemento dificultador é a língua! um escritor só pode escrever, se pretende ser lido, na língua conhecida e portanto passível de ser lida pelos seus possíveis leitores. Outro elemento plausível é o vocabulário usado em seu tempo. É possível que a língua seja a mesma mas as palavras usadas não sejam mais familiares, conhecidas, usadas ou tenham  mesmo sentido em que o autor/ escritor tenha usado. Pode também ser que seus leitores ainda a compreendam sem terem que recorrerem grosseiramente a um dicionário, o que nem sempre resolveria em cem por cento dos casos.

O segundo fator ou elemento, depois da língua, é o grupo que pode ser um grupo étnico, um grupo etário, um grupo econômico, um grupo religioso ( ou não religioso ) etc. Quem lê Paulo Coelho, ou o grupo de leitores de Paulo Coelho, possivelmente não tenha as restrições naturais e compreensíveis que já o impedem de lê-lo, como aversão a certo tipo de simplismo, gosto ou afeição por algo que beire entre o filosófico e o supersticioso e não alcance nem uma nem outra coisa. Poderíamos aplicar a mesma lógica aos leitores de José Saramago, embora escreva agradavel e claramente era uma pessoa assustada artificaial e exageradamente com o globalismo, com a anti-religião, com a anti-Deus e claramente mal informado acerca de tantas questões corriqueiras as quais peca na interpretação por ignorância mesmo. Ou seja um escritor avalia inconsciente ou conscientemente o que seus eventuais leitores acreditam, percebem em consonância com seu próprio pensamento e cosmovisão.

Isto já significa que um autor/escritor já parte de um princípio linguístico, língua e estilo que ele autor/ escritor não criara mas se apropriara e a partir dele desenvolve o seus escritos. As próprias personagens são tiradas ou baseadas nas pessoas eventualmente reais que ele mesmo tenha testemunhado ou ouvido falar ao longo de sua própria vida.

A personagem mulherengo vivida por um grande ator humorístico vivido em programas da televisão brasileira, como a Praça é Nossa e Zorra Total, segundo o seu autor foi baseada em um antigo colega de trabalho, dando origem ao hilário "Zé bonitinho". Os exemplos são verdadeiramente incontáveis. A personagem "Filó" , uma mineirinha com aparência e trejeitos de uma autêntica e simplória mineira certamente se baseia em um rico e bem feito laboratório em cima das mulheres mineiras, não tão jovens, mães de família, donas de casas e esposas das regiões mais interioranas do estado de Minas Gerais. O seu bordão final "Ô coitado" é de uma complexidade humorística ignorada fundamentalmente pela imensa maioria das pessoas que riem do seus esquetes por não conhecerem a etimologia da palavra, muito mais chula que um sonoro palavrão.

Voltando a pergunta inicial desta postagem e das elucubrações entre eu e minha bela colega loira! se um autor ou qualquer artista é verdadeiramente "original" ou não? a resposta é "não" porque ele simplesmente aproveita algo que já existe. Se não existisse dificilmente ele, autor, elaboraria do zero a língua, a gramática e o vocabulário desta língua nem tão pouco o universo, o mundo onde tudo ocorre em seu texto.

Por outro lado se o autor/ escritor só repetisse o que se vê no mundo real, e minimamente não ordenasse de forma lógica, criativa e coerente a sua narrativa ( e esta é a parte de sua criação/organização ) ele não teria feito nada de fato. Mesmo que afinal "o que tem que ser coerente e lógico é a ficção, a realidade não é lógica."

Há ainda a terceira possibilidade: alguém ser o primeiro marcar o início de um novo gênero, seja pictórico, musical ou literário.

Esta terceira possibilidade cabe aos loucos, pessoas deslocadas da realidade por incapacidade ou distorção intelectual ou psicológica. Neste caso, diferentemente dos demais outros casos e possibilidades anteriores, há vazios, imperfeições e falta de certos avanços ou aquisições naturais ocorridas ou manifestas nos outros dois casos. Prevalecendo neste caso fatores como estranheza, excentricidade ou mesmo total falta de lógica.

Há inúmeros casos assim, o mais conhecido é do pintor holandês reconhecido e admirado pós morte, Vicent Van Gogh. Van Gogh era esquizofrênico em uma época em que não havia grande possibilidade de tratamento e controle da doença e portanto sofreu mais concretamente as consequências deste mal que o afrigia. Não tinha pretensões reais, ambições financeiras e nem de reconhecimento. A sua pintura é resultado direto e objetivo de como via e sentia o mundo, uma reação pessoal e singular e não apoiada em similaridades profissionais de seus contemporâneos, também pintores. Entretanto embora um ponto fora da curva não poderia e nem conseguiria ser totalmente original por usar a base objetiva da sua pintura, tintas que já existiam e telas que tinha todas uma proporção esteticamente aceitas.

Logo mesmo nestes casos limites a criação ou a criatividade não consiste objetivamente em cem por cento ou algo novo feito a partir de um zero mensuravelmente absoluto.

Outro exemplo ( e como já dito poderia ser muitos mais ) é do paciente elevado a artista pela crítica, o Arthur Bispo do Rosário. Bispo teve uma vida considerada e comprovadamente normal até um acidente de trabalho e após ter que residir na casa de seu advogado nesta causa. Numa noite do dia 22 de dezembro de 1938 tem uma "visão do céu" em que se vê descendo do céu acompanhado por sete anjos, daí ele vai até o Mosteiro dos Frades e se apresenta como aquele que há de "julgar os vivos e os mortos". Daí é encaminhado ao Hospício da Praia vermelha onde é definitivamente internado e finalmente é enviado para a Colônia Juliano Moreira. 

Link para a biografia completa

Dá para se notar objetivamente que Arthur Bispo não poderia a partir deste momento ser uma pessoa objetivamente tida como "normal" e mais além do que Van Gogh a sua fuga ou existência aparte da realidade é de fato algo concreto. Entretanto a crítica atribui aos seus bordados e estandartes o "status de arte". Aliás, qualquer produção, criação artística ou obra de arte, em qualquer tempo ou lugar, só tem valor e reconhecimento a partir da narrativa, do que se diz, do que se cria e se constrói promovendo-a. Não há valor intrínsico em nada que seja produzido na Arte. É sempre, trata-se de algo atribuído, podemos dizer artificialmente a ela. Resumindo o valor da Arte e na Arte não passa de narrativa apropriada segundo ponto de vista de que quem voz socialmente.

O que se pode concluir é que cada artista/autor/compositor/criador pode e é em certa medida,mais ou menos, menos criativo, mais criativo, menos original e mais original. Quem é o pai do rock? controversamente há um consenso de que há um pai do rock,o primeiro a gravar um rock, um rei do rock, e um conhecido autor da expressão rock'n roll. Entretanto mais seriamente investigado, mais apuradamente, nenhum destes mais famosos nomes apontados por críticos, historiadores de música contemporânea é realmente a pessoa que inventara o rock'n roll! quem teria dado o verdadeiro start, o verdadeiro boot, estabeleceu e primeira ruptura, a maneira "inovadora" de cantar e de tocar uma guitarra? a chamada vovó do rock! 

A "vovó do rock" ou "madrinha do rock" foi uma mulher negra norte-americana chamada Sister Rosetta Tharpe ( 1915-1973 ). Ver mais em "A mulher que inventou o rock" . Rosetta simplesmente uniu o Gospel ao Blues, dois estilos musicais de origem negro-americana  acelerando-lhe a sua dinâmica. Logo mesmo a irmã Rosetta sendo a potenciadora de um novo gênero musical que se tornaria definitivamente mundial,não criou este novo estilo ou gênero do nada. O criara na sua igreja enquanto cantava canções religiosas para os fiéis em sua congregação.  

Afinal: há ou não há originalidade na criação artística?

Sim e não. Depende como se vê, o quanto há de mudanças notórias e como isto consiste em uma linha divisória entre o antes e o depois.Pequenas mudanças de estilo e de ênfase são quase uma constante de uma criação, de uma elaboração para outra, na maioria das vezes com pouca ou nenhuma importância. Estas poucas ou "novidades" menos significativas são normal e automaticamente desconsideradas por serem muito pequenas e nem sempre um passo adiante.

Por exemplo do tipo de interpretação do Elvis Presley para o rock dos Beatles há uma mudança significativa na sonoridade e do solo para o coral, da extensão vocal e dramaticidade para um canto mais adolescente do que adulto; da orquestra o vivo com um maestro e coro para somente quatro instrumentistas/cantores se virando ao vivo ( no disco não, os beatles contavam com todo um suporte sonoro, de arranjo e de estúdio, enquanto no caso do Elvis Presley a sonoridade do palco era a mesma da sonoridade de estúdio! )

No caso de eleitos "artistas" por sua condição mental, um ato arbitrário da crítica de arte (como sempre  é feito com qualquer artista e qualquer criação ou obra de arte ) trata-se igualmente de uma falsa e apenas conveniente originalidade,geralmente atribuída por uma lacuna de coisas novas das quais a Arte como entidade e instituição humana necessita compulsoriamente se alimentar.

Por ora é só, até a próxima pessoal!

Por Helvécio S. Pereira

Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG

e em pedagogia pela FAE/UEMG

Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador  da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.

Blogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

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