007 A "VERDADE" NA LITERATURA
Você já se deteve em se pensar que quando lemos um romance, uma crônica, um poema, atentamos para a letra de uma canção, atentamos para um enredo de uma escola de samba no carnaval brasileiro, numa divertida e lúgubre crônica de Nelson Rodrigues, você acredita ou não no que está sendo dito?
Sim esta é a verdade: só lemos ( ou continuamos a ler, a ouvir ) aquilo que acreditamos. Pode não ser uma crença, uma fé como uma fé religiosa em que os principais pontos estão claros ou se tornam claros nas mentes das pessoas, mas ler, gostar, apreciar e incorporar valores, espaços, realidades é um ato de fé de cada leitor quando lê qualquer coisa escrita por um escritor.
As séries idolatradas como Star Wars e Jornada nas Estrelas entre outras se baseiam na crença de quatrocentos anos antes delas e de nós em que os planetas eram habitados por humanoides e outros imaginados seres extraterrestres. Hoje já se sabe que era um erro das pessoas que viviam nesta época, erro revivido inconscientemente por cada expectador hoje.
Claro que nenhum aficionado por uma destas séries dirá isto mas é um fato. Do mesmo modo os leitores e expectadores de Harry Potter de modo que as incongruências são ignoradas e desprezadas. Alguém pode dizer: "mas não trazemos estas crenças para o nosso dia a dia. Fica lá na ficção".
Sim e não. Vejamos que bilhões de dólares são gastos agora nas investigações científicas direcionadas ao nosso vizinho Marte. Tudo para provar uma tese de que Marte possa ter sido o que a Terra é hoje, ou que a Terra poderá se tornar como marte é hoje ou ainda que já houve vida no planeta vermelho. A decisão de direcionar tanta pesquisa e dinheiro vem indiscutivelmente da farta literatura ficcional produzida desde alguns séculos que foi e continua formatando a mentalidade das pessoas desde cientistas, governantes com poder de decisão e pessoas comuns o público em geral.
Se atentarmos para a literatura em toda a sua produção ela funciona como um modo sutil de ir introjetando nas pessoas ideias, valores e crenças que poderiam nem ser aceitas ou introjetadas se fossem ditas escancaradamente. É como se "verdades" fossem sendo injetadas lenta e sutilmente sem maiores resistências de quem as recebe.
Não se trata de uma análise objetiva do livro mas de como ele afeta as pessoas que porventura venham a lê-lo: o livro de Mórmon ao ser lido possui um estilo que se assemelha-se aos livros bíblicos do Antigo Testamento, Gênesis e Reis. Se desprezarmos a origem obscura de como ele chegou a existência ( o livro de Mórmon ), por seus relatos movimentados e suas personagens com nomes e histórias, se o leitor não tiver acesso a nenhuma outra fonte crítica acabará acreditando em cada fato ou relato nele existente.
Ao ler qualquer livro do escritor Paulo Coelho você crerá em cada relato em seus escritos mesmo sendo obviamente ficcionais e absorverá os valores e experiência de cada personagem como inteiramente reais. A poesia do Hino Nacional Brasileiro sendo bela e atrelada a uma belíssima melodia e arranjo primoroso, clássico, é tomado sem reservas ou críticas.
Assim, do mesmo modo, toda a literatura religiosa, de todas as religiões do mundo, particularmente as principais, quando bem escritos usando o melhor das línguas em que foram originalmente escritos, convencem seus leitores e crentes pelos próprios relatos sem a resistência crítica que deveria ser natural pois vários deles ou todos eles colocados em um mural e comparadamente francamente se contradizem.
Deste modo, semelhante ao professor que de uso de sua autoridade sapiencial pode impingir uma determinada crença em seu aluno assim também a literatura. Recentemente uma professora, minha colega, excelente na sua área, ciências, ao ser confrontada politicamente ( que é um detalhe fora de sua área ) usou a sua "autoridade" professoral para calar a aluna inconveniente dizendo: "o dia em que você souber o que eu sei, etc, etc ".
Claro a autoridade de qualquer pessoa, seja papa, ministro, cientista, médico, não muda nenhum fato concreto. Contrariando o escritor paulo Coelho em uma de suas falácias literárias em que afirma que "O Universo inteiro conspira a seu favor", eu diria que o "universo" não está nem aí para a s nossas reles e individuais opiniões.
A literatura do mesmo modo, não ela mas nós erroneamente lhe atribuímos, um grau de autoridade e de verdade que nem sempre ela realmente possui. Há de se compreender que não á como ler algo em que eu não tenha afinidade ou fé a não ser para fazer o oposto: conhecer algo que é escrito por alguém para desconstruir e apontar deste modo os erros registrados em tal literatura. A isto se chama apologética o que é outra situação.
Mas se não poso ler algo sem concordar com este algo e de certa forma manifestar crença no que leio é muito importante termos consciência, pelo menos da desproporcionalidade conferida a autoridade da literatura em nossas vidas.
O erro, pelo menos erro cometido pelas pessoas comuns, é partir de uma crença inconsciente da verdade literária e da "autoridade inquestionável" dos "escritores". Escritores e sua literatura no possuem natural e inquestionavelmente esta autoridade. E as diversas literaturas são transformadas em filmes, em séries que confirmam pela mágica apoteótica do cinema em verdades ainda menos questionáveis e que passam sim a serem cridas e assimiladas como verdades maiores.
E todas as pessoas em menor ou maior proporção assimilam realmente o que aparece em uma determinada literatura. Um exemplo é o péssimo livro "A Cabana". Quantas pessoas se mostraram sensibilizadas com as bobagens escritas por alguém que não é teólogo de nenhuma igreja ou religião e que não conhece e nem avalia mais concretamente as implicações sérias relacionadas à fé. Mas a força do "escritor" e as vendagens do livro convenceram muita gente de que Deus é feminino mesmo que este detalhe nunca tenha sido relevante em nenhuma teologia importante de modo a que cristãos, particularmente mulheres deram uma resposta altamente positiva e receptiva a tal carrilhão de incongruências.
Outro exemplo bastante notório entre tantos que podem ser lembrados é "O Capital" de Karl Marx que independentemente do grau de formação, experiência, observação e contexto é tomado como verdade tanto tempo depois de forma pouco questionável pelos crentes na ideologia socialista e por uma massa de gente que nunca leu materialmente todo o escrito ou registro de Marx em sua obra mas que se referem a ele e a sua ideologia como autoridade máxima e cosmovisão final para toda a sociedade.
As vezes basta um único livro ( e O Capital é apenas um exemplo ) para algo ser tomado como verdade final e absoluta. Os exemplos na verdade são vários e que comprovam a incrível autoridade atribuída pelo menos acriticamente a seus autores. Al Gore o candidato derrotado ou contabilizado erroneamente e vencido pelo presidente Buch, publicou um livro apontando o pressuposto aquecimento global e desde o seu livro ( Uma Verdade Inconveniente ) esta é uma verdade predominante e repetida acriticamente pela mídia, por políticos, nas escolas por professores, por ativistas e repercutido por uma plêiade de oportunistas barulhentos sendo que o correto era ser proporcionalmente e cientificamente discutido.
Al Gore repete a mesma teoria em vários de seus livros e esta "verdade" repercute em todos os setores até os dias de hoje após décadas ao ponto de durante a pandemia de covid alguém ter escrito um texto repercutido em escolas acerca do "problema do descarte das máscaras anti-covid" ao ponto das pessoas ficarem preocupadas com o destino ambiental do mundo, como se todos fossemos morrer por isto.
E a Bíblia? não é uma literatura construída para dizer algo as pessoas e convencê-las de uma "verdade" entre tantas? não fugindo da questão e respondendo-a a Bíblia não é um livro monoautoral pelo menos do ponto de vista humano. Cada livro das chamadas Escrituras é de autores e as vezes de um autor e um escriba diferente em uma linha temporal de mais de três mil anos. Excetuando os quatro Evangelhos que foram escritos pressupostamente direcionados e com características jornalísticas ( destacando-se o Evangelho do advogado Lucas, e não médico ) os outros escritos particularmente as cartas do Novo Testamento, não pretendiam ser parte de um livro ou um livro em si, mas eram correspondências com assuntos necessariamente abordados dadas as circunstâncias.
Qual a diferença então? é que em qualquer literatura, talvez o leitor comum não o saiba, autor ou autores já têm em suas cabeças e mente um tema e uma tese. Deste modo todas as centenas de páginas ou até menos, com toda a argumentação e narrativas funcionam como meios subjetivos e acessórios para simplesmente cativar o seu pensamento para finalmente convencê-lo de uma verdade, muitas vezes pueril, que quase sempre pode ser sintetizada em uma frase. E caso fosse dita em uma frase imediatamente você poderia não acredita e não aceitá-la.
Cito a profícua escritora, pelo volume sim uma das maiores escritoras norte-americanas, a adventista Hellen G. White: não crendo na sobrevivência imaterial da alma após a morte ela diz que recebeu uma revelação de seu falecido marido instando-a a escrever tudo o mais que escreveu como profecia e palpites após este evento. Como pode alguém que cria que a alma não sobrevive ao corpo admitir uma única exceção universal: justamente a de seu marido em apoio a ela mesma? Eu não preciso ler as milhares de páginas escritas por ela, minimamente a "autoridade" de escritor já foi minada, ou deveria, por ela mesma. Mas os fieis da Igreja Adventista do 7º dia continuarão lendo seus escritos por conferirem a ela e reforçarem sua "autoridade literária".
No kardecismo o próprio além Kardec "entrevistara" habitantes de outros planetas próximos a nós. Planetas estes hoje comprovadamente inabitáveis, alguns não ferrosos, gasosos, com mais uma característica contra a sua habitabilidade principalmente por seres "mais inteligentes que nós". Tais fatos solapam a autoridade literária do autor. Ma mesmo assim milhões de pessoas continuam lendo e crendo em seus escritos. Notem que não se trata de uma crítica religiosa, mas literária. A literatura com suas teses e ficções tomadas como verdade devido a atribuída e exagerada autoridade literária.
Na tão badalada Ciência como instituição substituta e de autoridade concreta e maior que a fé, verdades passageiramente aceitas mais pelas autoridades literárias do que por comprovação final, é questionada. Recentemente, dentro da própria ciência por dados também recentes do telescópio James Web, questiona-se se houve realmente um "Big Bang" pelo simples fato de galáxias gigantes, pela teoria majoritariamente aceita, pela formação delas, seriam em tese cerca de quinhentos milhões de anos mais velhas que o próprio universo. Que comecem os jogos: a guerra literária sobre o assunto que pode vir a demorar a chegar às grandes massas de pessoas, às escolas! mais uma vez leitores se dividirão entre autores levantando argumentos em favor de uma ou outra hipótese.
Finalmente, por ora, deixaremos de ler coisas, textos, romances, teses, poemas, ouvir canções e assistir filmes ( que são decorrentes de roteiros e de livros )?
Não! e nem deveríamos!
Mas considere o peso desproporcional que frequentemente damos a "verdade" literária que proporcionalmente deve ser posta em prática quando se lê qualquer produção literária como uma provocação feita a nós, provocação esta que exige uma resposta pessoal. Esta resposta pessoal, intransferível, não licenciável é que deve ser o grande crescimento e aprimoramento pessoal que cada um de nós deve procurar obter. A verdadeira "erudição", o "erudito", o "não embrutecido" mas o mais flexível, amplo e positivamente transformável, o que cada um de nós deve aspirar e conseguir se tornar.
Por Helvécio S. Pereira
Até a próxima então!
Por Helvécio S. Pereira
Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG
e em pedagogia pela FAE/UEMG
Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.
Brogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

.jpg)
Comentários
Postar um comentário