008 GÊNEROS LITERÁRIOS

 


C
reio, acredito mesmo,  que todos nós que passamos pelos diversos níveis de escolaridade tivemos algumas aulas sobre literatura e fomos obrigados a ler sob o peso de notas e de pontos atribuídos às atividades. A lermos selecionadas literaturas, tanto romances, crônicas, poemas.

Atualmente textos de autores estranhos são empurrados goelas abaixo de crianças e adolescentes que como a nós no passado, não realmente escolhidos por eles mesmos ( o que na prática é de fato impraticável mas que o seja pelo bom gosto e sensibilidade de um professor individual e pessoalmente!). Notadamente uma certa literatura bem pior que a imposta a nossa geração com mais característica de ativismo travestido de literatura do que literatura qualitativamente.

Toda esta produção literária de autores, escritores, que se tornaram tais, muitas vezes não por formação mas por tendência, as vezes talento, sempre impostos pelo mercado é a que chega a toda as pessoas. Pois, gostando ou não, reconhecendo ou não; concordando ou não, no mundo real tem valor e peso, qualquer cujos escritos ou livros que sejam amplamente vendidos. E aí não se contabiliza a qualidade mas os números financeiros, ou alguém ignora isto? 

Esta é uma realidade em todo o mundo hoje e desde a invenção da gráfica. Toda esta criação literária e ignorada como artística se divide naturalmente em tipos aos quais chamamos gêneros.

A abordagem técnica sobre os gêneros literários todos nós vimos a certa altura da vida e quase sempre requer um esforço de minutos para repetir o melhor esquema destes gêneros que, na prática se mostram meio inúteis já que ao ler qualquer literatura não pensamos compulsoriamente neles. 

Simplesmente gostamos de algo e até o lemos várias vezes, comentamos com pessoas que lhes reconheçam igual valor e não nos damos muito a devaneios técnicos sobre cada um deles, afinal trata-se quase sempre de dissertações muito enfadonhas até para quem as aprecie, ou seja, obrigado a repeti-las, por exemplo, no exercício de professor.

Pensemos nestes gêneros ou tipos literários como algo mais prático, mais objetivo! portanto, mais perceptível e mais fácil de se falar e entendê-los no nosso dia a dia.

Gêneros a grosso modo são sotaques usados por grupos de escritores, sotaques estes familiares e mais prazerosos a seus leitores de modo que quem escreve tem prazer em dizer as mesmas coisas de certa maneira e quem lê seus escritos e textos tem prazer em lê-los.

Dois nativos de Portugal falando português têm um ritmo e uma entonação características que  ambos, falante e ouvinte percebam imaginadamente menos ruídos em seus diálogos e conversas. O mesmo não se dá entre um brasileiro e um português, ambos nativos, um do Brasil e outro de Portugal, que além das  variantes ocasionais de mesmas palavras, produzem as mesmas palavras e frases com ritmos diferentes. 

Se entenderão mutuamente, porém um achará que o outro fala mais rápido ou mais lentamente. Que  determinadas palavras e construções de frases sejam menos usuais para um do que a outro. É muito natural e provável que cada um se sentisse melhor falando e rindo do mesmo assunto cada um com um indivíduo nativo de seu próprio país.

Da mesma forma duas crônicas ou dois poemas podem abordar e se ater aos mesmos temas mas o estilo, a forma de escolher as palavras e construir as frases, pode ser diversa de acordo com a formação, o contexto e as vivências de cada um dos autores e e finalmente e não somente e também do seu público leitor alvo.

Se o público leitor se diverte ao encontrar palavras e ideias do seu próprio grupo social e lugar pode preferir palavras chulas, de duplos sentidos, com maior ou menor conotação sexual, palavras de uso mais restrito, descrições mais reais ou idealizadas ou ironias bem ou até mal e grosseiramente aplicadas.

Pode-se dizer que cada época possui e produz um estilo literário ou gênero literário que coexista com o gosto das mesmas pessoas que tenham acesso a eles e lhes atribua status de valor. Sem este consentimento coletivo nenhuma obra alcança o sucesso e se torna mais conhecida ao ponto de ser admirada ou até combatida.

Gêneros literários podem ser reconhecidos como superiores, inferiores, ideais e menos ideais, imprecisos e menos imprecisos, descartáveis e momentâneos, marcantes e revolucionários ( no sentido de atribuírem à literatura universal novos rumos e tendências ) ou apenas suportados por sua excentricidade. Há várias classificações possíveis e justificáveis na nossa mania e obsessão por classificações.

Geralmente autores e escritores, por uma tendência, habilidade, influência se mostram melhores em certos gêneros já existentes, classificados e definidos e jamais se dariam tão bem em outros. Normalmente esta habilidade se desenvolve por admiração e leitura de outros escritores e autores anteriores a eles mesmos. 

Adolfo Hitler tentou ser aquarelista mais próximo do realismo quiçá impressionismo. Mas o seu professor, obstinado por um gênero de pintura mais fiel à realidade o reprovara impedindo-o de ser um artista e deste modo condenando um jovem revoltado ( e isto não se trata de uma desculpa ou uma justificativa para o rumo que ele tomara na sua vida) a fazer outra coisa. Nada poderia ser ou foi pior! 

Jamais saberemos se a história poderia ser diferente! Ficando a interrogação terrível se poderia ser de outro modo, resultou na sua autônoma liderança justamente para uma segunda grande guerra de implicação mundial. Talvez se Hitler tivesse pretendido ser um pintor cubista, seria aceito e poderia ser um outro Pablo Picasso. Afinal como gênero o cubismo é claramente mais fácil tecnicamente que qualquer realismo. Assim como aparentemente é muito mais fácil enganar as pessoas sob as bençãos estéticas da "arte contemporânea". Alguém duvida?

Escritores escolhem ou são escolhidos por gêneros literários. Nós como leitores escolhemos ou somos paradoxalmente escolhidos pelos mesmos gêneros literários.

Talvez isto se deva a algo mais basilar, fundamental e natural: o temperamento de cada um de nós, temperamento com o qual nascemos e independentemente de etnia, status social e formação educacional nos leva a gostar mais de algumas coisas do que de outras.  

Pessoas mais práticas odeiam ou se afastam de palavrórios, uso dispendioso de palavras e de vocabulário para dizer coisas simples e mais acessíveis portanto de serem entendidas com menos palavras. Pessoas mais idealistas talvez prefiram uma descrição detalhada, cheia de filigranas, de algo que vá além da realidade, criando diante delas e em suas mentes uma realidade mais fantástica.

Outras pessoas prefiram à prosa à poesia. Outras romances à crônicas ou ao contrário. Outras ainda estórias do passado, claramente ficcionais. Outras, histórias com fato já comprovados e menos acréscimos digamos literários ou mais fantasiosos. Outros um tipo de textos positivos, outros ironicamente negativos como as famosas crônicas de Nelson Rodrigues ou as realidades expostamente cruas por Jorge Amado.

Alguns primarão pela genialidade de certos autores, outros pela não tão genial capacidade literária mas por outra qualidade como a do escritor Paulo Coelho, sucesso por outra característica. Coelho aparentemente se caracteriza por dar ao público, a seu público, o que prefiram ler e não a sutileza e dureza de José Saramago em seus escritos, reflexos claros de seu próprio temperamento melancólico, pouco afeito à massagens psicológicas mais palatáveis aos outros.

Enfim é trabalho dos críticos literários que longe de constituírem as suas críticas palavras finais sobre qualquer autor ou escritor pode ser apenas o reflexo inconfesso de uma frustração por eles mesmos não terem feito nem algo tão bom ou tão ruim como as vitimas. Vítimas estas, os escritores, geralmente já mortos, de seus dessecamentos impiedosos.

E quando um crítico enche ou cobre de elogios certo autor, geralmente é um fã como qualquer um de nós, leitores comuns e anônimos, ou foi pago para isto, pois no mundo real a propaganda é paga nem sempre ética e sem ela nada se vende.

Finalmente, a nós resta compreender minimamente como a máquina chamada sociedade humana funciona em seus mais ínfimos detalhes. Isto nos permite escolhas, escolhermos mais que sermos submetidos, termos individualidade ao invés de sermos um "tijolo na parede" como reza uma canção da banda Pink & Floyd. Canção esta, muito agradável, mas que não deve ser consumida acriticamente. Que como poesia e literatura, pertence a um gênero, resultado de uma visão de um contexto e a partir das limitações naturais de jovens que mesmo estando em uma universidade, pouca ou muito menos atenção estavam dando a outros estudos.

Logo gêneros, na música bem como na literatura, são apenas recortes arbitrários, tecnicamente necessários, que satisfazem principalmente a muitos egos e cabeças coroadas. Não absolutos, que ajudam reconhecer e a escolher a priori, algo que seja lido e para os que se dedicam à literatura como função, profissão, e, portanto, meio de vida, a escrever de determinada maneira e forma.



Até a próxima então e novamente!

Por Helvécio S. Pereira

Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG

e em pedagogia pela FAE/UEMG

Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador  da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.

Blogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

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