004 O PRAZER EM LER ( E EM ESCREVER )
O que distingue ou define as ocupações humanas? primeiramente as oportunidades, o momento e a circunstância. A época que alguém nasça, contrariando as feministas e os ativistas de raças, o lugar e o conjunto de mudanças que ocorrem, podem e são aproveitadas por alguém.
Outro fator são as aptidões naturais: quem enxerga melhor, quem ouve melhor, quem é mais concentrado, focado em algo, quem é mais comunicativo, quem arrisca mais, quem tende a gostar de novidades, quem é inventivo ou criativo, etc.
A escritora e hoje milionária autora da série Herry Poter, era uma mulher desempregada que usou o fato de ser alfabetizada, ter imaginação e aproveitar algo que todo ser humano tem: vinte quatro horas para se investir em dormir, comer, fazer as demais necessidades biológicas, refletir e imaginar. Nada que a grande parte das demais pessoas comuns não pudesse ou não soubesse fazer. Claro, havia uma indústria do livro e leitores ávidos por ler uma literatura fantástica.
Por outro lado o que muitos de nós desconhece é que o que leva pessoas a fazerem coisas é uma tendência em se fazer mais e duradoramente aquilo que causa prazer uma opostamente a outra tendência que nos afasta de coisas não necessariamente difíceis ou inacessíveis exatamente por não nos dar prazer.
Aquilo que chamamos de vícios é explicado como um conjunto de comportamentos repetidos por sempre causarem um prazer específico. Ninguém fuma charutos para ficar com os lábios tortos ou deformados ou bebe uma bebida alcoólica para sofrer terríveis dores de cabeça no dia seguinte. Em ambos os casos fumar e beber são recompensados por prazeres objetivos. Todos os atos humanos são deflagados por prazeres objetivos mesmo que estes prazeres não sejam claramente identificados exatos e individualmente. Por que as pessoas tanto cultas ou simples fazem sexo? há uma recompensa biológica, num jogo complexo de estímulos e recompensas físicas principalmente e psicológicas, imaginadas ou não.
Escritores e antes leitores o são da mesma maneira e forma. Por que alguém se sentaria em alguma lugar previsivelmente mais reservado e se poria a ler um texto arbitrariamente inventado por algum, quase sempre desconhecido? por um prazer e uma recompensa real ocorrida no corpo, na mente e o texto, o tema pode variar e ser antagônico de leitor para leitor. Uma leitura não é melhor ou mais prazerosa que a outra por ser mais "verdadeira", por ser em tal ou tal idioma, por ser de um vocabulário mais ou menos rebuscado, mais ou menos exato. Estes atributos embora possam ser julgados e o são de uma perspectiva mais distante,variam de leitor para leitor e de escrita textual para escrita textual.
Escritores são antes leitores que se converteram em escritores tais, presume-se, em tese, crentes, fiéis de uma determinada religião se convertem em religiosos: padres, pastores, rabinos, sheikes, etc. Não se imagina um líder religioso que não tenha percorrido alguma etapa prática de sua própria religião. Assim também escritores se tornam tais, ou seja escritores, sendo normalmente antes, ávido, sedentos e bons leitores.
Este prazer em ler e ser recompensado química e mentalmente é assimilado em reproduzir para si mesmo textos que lhe causem este mesmo e até maior prazer e é aprendido que pode causar em outras pessoas prazeres semelhantes. Uma cadeia se estabelece entre quem antes só usufruia e agora produz para que outros também usufruam deste mesmo prazer.
Entretanto e também, escritores continuam lendo obras e textos de outros escritores assim como outra classe de artistas, escritores sim são artistas, como músicos ouvem sons e criações de outros músicos.
Diferente de outras ocupações e atividades humanas, escritores bem como compositores musicais, aparentemente a sua ocupação não pareça ser exatamente material, correspondente a algo mais real mas a uma realidade paralela. O que quem escreve produza em seus textos, mesmo ao referir-se a fatos acontecidos parece acresce-los sempre de um enfeite, um adorno, algo que os torne sempre mais atraente do que seriam ou são na mais crua realidade. As trágicas narrativas de Nelson Rodrigues ( e este é um exemplo aleatório, pode se escrever centenas de páginas exemplificando e comprovando esta tese) não teriam nenhum atrativo a não ser o da satisfação da curiosidade advinda da notícia repentina da queda de alguma aeronave. Os Lusíadas de Camões vão além ou aquém das aventuras dos navegantes portugueses.
Ser um escritor é sim uma atividade humana e portanto um trabalho. Porém pertence ou pode ser categorizado como um tipo de trabalho não essencial como produzir alimentos ou construir habitações. Nos dois extremos ocupacionais comentemos injustos julgamentos: um é desnecessário, o de perder-se tempo escrevendo e o outro menos intelectual e nobre. Curiosamente necessitamos de ambos. A diferença é que sobrevivemos por bastante tempo é possível sem escritores e não sobrevivemos em um dia sem que alguém de alguma forma produzisse alimentos.
Como alguém da ciência, um astrônomo, disse certa vez em uma reflexão pouco exata mais pertinente: " passamos a usar a sobra de nossa capacidade cerebral". Escritores encontram "sobra", algo extra para ser usado em uma atividade que por si só não é útil nem inútil, benéfica ou maléfica, essencial ou não essencial mas acontece e está entre nós hoje facilitada pela tecnologia, pela comunicação, pelo acesso, por uma espécie de "democratização", em que textos chegam cada vez mais a mais pessoas e são produzidos e lidos por mais pessoas. Textos que divergem em tantas coisas, deste temas, utilidade, veracidade, malignidade e benefícios, mas eles existem e marcam e influenciam gerações, para o bem e para o mal. Como espermatozoides disputam entre si quais sobreviverão e quais darão vida a novas ideias, percepções, realidades e quais ajudarão a nós todos e a cada um de nós a encontrar a que deveria ser sonhada a ser encontrada: a verdade.
Por Helvécio S. Pereira
Até a próxima então.
Por Helvécio S. Pereira
Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG
e em pedagogia pela FAE/UEMG
Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.
Brogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

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