002 NO ESCREVER E NO QUE SE LÊ: O QUE É ESSENCIAL E O QUE É SUPÉRFLUO?


U
m dos resultados, uma das consequências da atualidade, não da modernidade ( o que não é a mesma coisa! ) é a disponibilidade de tempo, saberes e fazeres não essenciais à sobrevivência humana. Sem esta da lorota que nossos ancestrais desceram das árvores, homens primeiro, mulheres depois e que "evoluímos"! Aliás a probabilidade se fosse possível de transportar o homem moderno médio para dezenas de milhares de anos atrás, a não ser que fosse um magaiver da vida morreria no primeiro da ou após alguns com muito sofrimento e dores.

Logo não carregar enormes cargar, comer mal e pouco, dormir mal, vestir-se proteger-se mal, ter doenças crônicas, infecções, mau odor e estar imundo era algo que ocorria aos inigualáveis gênios da música clássica que na maior das vezes morriam dolorosamente antes dos quarenta anos. Ao invés disso idiotas jovens ou nem tanto hoje são influences na internet, badalados pela mídia, sem cáries, sem hemorroidas, cândidas e até espinhas.

Somos indubitavelmente privilegiados embora este privilégio não redunde diretamente em algum ganho real afinal gastamos esta sobra de gordura mental com bobagens, mitos, ilusões, inverdades e inutilidades mesmo, E quando a usamos como melhores mordomos não nos auto avisamos que tudo o que é cerebral se perde provavelmente com a morte. Ou alguém pode provar por "a + b" que todos os seus cursos, diplomas, teses e demonstrações permanecem em sua cabeça após a morte, enterro ou cremação? basta uma doença degenerativa que a pessoa vitimada não mais sequer se reconheça mais.

Se pensamos e logo existimos, se fazemos reflexões e as espalhamos aos nossos semelhantes, sejam porque motivos pessoais e sociais forem como separar o que seria benéfico para nós mesmos e para os nossos semelhantes e curiosas e também desocupadas gerações posteriores?

Vale para os que vêm após cada um de nós e para nós mesmos: é muito mais cômodo e preguiçoso não inventar de novo uma roda, sempre bebemos ou comemos pelas mãos alheias. Entretanto permanece o desafio: investir no que vale bem, muito a pena, e o que não passaria de entretenimento. Afinal se ocupar com problemas da vida alheia nos faz ( na maioria das vezes, não é regra! ) esquecer da nossa própria vida e de nossas demandas e ter que enfrentá-las. É muito mais prazeroso dar pitacos na guerra Ucrância x Rússia do ligar o 190 e dedurar o traficante na sua esquina ou na porta da escola de seu filho.

Mas voltando à pergunta da chamada da postagem:

Escrever, ler, o que é acrescenta ou o que só distrai ou ilude? 

Há de se lembrar que literatura é um tipo de texto que ou de produção de pensamento menos direto e portanto menos objetivo que a linguagem oral normal, logo é menos compreensível à pessoa média comum muito menos afeita à criativas figuras de linguagens que fujam ao seu gueto e universo linguístico e praticamente fechada à ideias e projeções novas. Claro! há a boa e a péssima literatura como há nas demais produções humanas.

O pior livro que li na vida, li a tradução, mas o original também não se salva, foi  "A Terra Oca"... há outras literaturas niveladamente terrível e claramente ruins como o "O Universo em Desencanto". E olhem que em estou tratando do mérito do tema ou assuntos em questão. O livro de Mórmon é inverossímil mas o seu estilo angana bem, Os livros de Hellen G. White contém desde erros de todo o tipo, factuais, até dogmáticos ou teológicos mas o vocabulário também engana bem. "O livro dos espíritos" de Allan Kardec, por abusar do palavrório e de seu autor haver sido um pedagogo discípulo de Pestalozzi, idem, "As Institutas" de João Calvino ou  "O Capital" de Max, ou ainda "As Origens das Espécies" de C. Darwin também são bem escritos e se pode dialogar com os seus autores, concordando com eles ou não.

Citei livros religiosos ou teses relacionadas à origem e futuro da humanidade mas os filosóficos, aos agnósticos, os ateístas, os técnicos e os científicos, todos em parte ou maiormente nos treinando a pensar e a separar alhos de bugalhos.

Quem lê sobejamente pode se enganar tanto ou quanto e até mais como quem é ignorante acerca destas coisas e temas mas há sempre a possibilidade maior de ter mais opções, escolhas de crenças e de posições, de cosmovisão e de crítica do que as demais pessoas medianas neste quesito. 

Primeiramente toda escrita é informação e isto sem se penetrar no mérito de precisão ou de verdade logo o resultado do que se lê é sempre um território de possibilidade quase infinito. Em segundo lugar toda escrita ou todo texto que se leia pode de duas uma: gerar acúmulo de conhecimento a ser apenas replicado ou modificar preferencialmente o ser interno do ser humano. Trocando em miúdos alguém pode ser um acumulador e bom repetidor de informações que não o modifique como pessoa, internamente ou se preferirem alguns, a sua alma ou o seu espírito ou diferentemente toda informação obtida pode torná-lo um ser humano melhor, "erudito", "não bruto" ou "brutalizado".

Não há mecanismos exatos para se aferir tal coisa ou tal condição humana, percebemos ao lidar com pessoas que se mostram de um ou de outro modo. Não há também caminho ou jornada, ou carreira, cem por cento eficiente capaz de transformar todos os seres humanos uniformemente em seres melhores e todos com as mesmas virtudes e nível de virtudes. Trata-se de uma jornada que dura toda uma vida e da qual não se sabe os pontos exatos em que começou tal aprimoramento e quando ocorra o seu ápice. Nem tão pouco se tal desenvolvimento é de fato contínuo ou se há avanços e retrocessos e quais deles prevaleçam ou não e qual deles certamente será o vitorioso. O escritor português José Saramago certamente não foi ateu desde a sua infância mas se tornou um e pior desrespeitoso de Deus. Darwin aparentemente teve menos fé ao final de sua vida e de suas pesquisas e tese que anteriormente na sua juventude e formação teológica. O contrário também foi e é verdade na vida de incontáveis outros seres humanos hoje.

Ler ou não ler?


Ler sempre que possível, ler com critério cujo árbitro seja sensibilidade advinda da natural comparação entre textos e textos, autores e autores, escritores e escritores, entre temas e temas. Assemelha-se como aprender a ouvir música, a princípio se ouve tudo ou quase tudo e com o tempo vai se afunilando no que se refere à qualidade textual, compreendida aqui no caso, não como acertividade no discurso mas como clareza no que é dito. Algo desejavelmente e claramente entendido gerará argumentos favoráveis ou contrários e o leitor sempre ( ou quase! ) terá um ganho, um acréscimo na sua compreensão de tema, assunto ou experiência.

Quando escrever?


Todo escritor é um leitor e se há exceções são poucas e com certeza, muito provavelmente, não escreverá "bem" pois o contato com outros autores e escritores balizam no pretenso novo escritor como fazer e o que evitar, desde exageros literários quanto deficiências autorais. Ou seja como em casos específicos só o exercício pode gerar produtividade e acerto. O relapso e ou preguiçoso sempre pecará por ter deficiências e limitações não percebidas e deste modo não resolvidas.

Outro ponto é que o tempo de reflexão, geração de assunto, o ponto zero da criatividade não corresponde na maioria das vezes ao momento oportuno de materialidade de um texto a não ser que seja um autor cuja carreira o mantenha pronto para o seu ofício em seu escritório. A enorme maioria de autores têm vidas comuns, ocupadas com coisas comuns, demandas comuns da vida, família, outro trabalho, compras, deslocamento, economia doméstica, etc e em certos momentos se aquietam e começam a produzir as suas coisas.

Laptops e telefones inteligentes ( estes últimos não no meu caso ) têm facilitado a vida de quem escreve inclusive a minha. Tenho escrito ( e me assustei ) de ter escrito centenas de artigos abordando temas muito ocasionais e as vezes abrangentes aproveitando momentos diferentes para escrever tais coisas quase tão logo ocorriam.  Como hoje estou sentado em minha cama com uma caixa de papelão recortada e preparada habilmente pelo meu filho, como uma ponte sobre minhas pernas com um Chromebook, outros que escrevem alguma coisa o fazem a mão em folhas de cadernos ou bloquinhos. No meu caso específico e não há justificativa para tal, quase nunca escrevo algo a mão, só digito em algum equipamento.


E você como lê e como escreve? ou só lê e não escreve ou ainda escreve e não lê escritos de outros?

Se puder diga-nos.

Até a próxima então!

Por Helvécio S. Pereira

Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG

e em pedagogia pela FAE/UEMG

Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador  da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.

Blogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

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