003 SE PODE APRENDER COM ALGUÉM CUJAS CONVICÇÕES, PERCEPÇÕES E CRENÇAS SEJAM DIVERGENTES DAS SUAS?
Há algum tempo eu vi uma palestra de um ex-padre que se tornou evangélico após um episódio pelo menos inusitado. Como era um daqueles padres jovens e modernos e coordenava um tipo de "motociata" para atrair e ocupar jovens católicos em sua cidade ( havia nas décadas de 70 e 80 vários padres neste tipo de engajamento, cantando músicas seculares em shows, outros sendo ativistas comunistas... o que a falta de sexo faz com a mente masculina! rs...rs...rs... ) um dia convidou a título de brincadeira o seu mecânico de motos, um senhorzinho presbiteriano dizendo-lhe " você que sempre convida meus fiéis a irem par a sua igreja tá convidado a regar um dia na minha durante a minha missa!"
O senhorzinho tipo tiozão aceitou e um domingo foi realmente a paróquia do padre. O padre cumpriu a promessa e com a paróquia lotada cedeu o púlpito ao convidado inusitado. Resultado o senhorzinho pregou a Salvação pela graça, fez apelo tal qual fazia em sua igreja da qual era apenas diácono e o resultado é que naquele domingo, naquela missa, cerca de duzentas pessoas, segundo o padre e o próprio padre aceitaram a Jesus Cristo como único salvador exatamente como a fé calvinista.
Mas por que conto esta história neste texto? por dois motivos: a literatura somente grava de forma quase que perpétua coisas, ideias, fatos que permaneceriam anônimos, este é o primeiro! o segundo é que postos os fatos cabe ao leitor julgar e ter a compreensão correta, "verdadeira" dos fatos e do relato.
Muitos ao lerem este resumo dos reais fatos concluirão ou terão compreensões diversas e opostas. Alguns acharão um desastre o padre e paróquia terem se tornado protestantes, outros acharão maravilhoso e outros bizarro, irrelevante. E a outros que nem têm ideia do que seja cristianismo, catolicismo, calvinismo, etc. Algo plenamente possível e real.
Como conclusão podemos concluir que ler por ler não constitui por si só algum tipo de "iluminação"!
Mas lembrei-me deste padre e seu testemunho por outro motivo! este padre há época jovem, culto, bem informado, dissera que eles padres eram "proibidos de lerem qualquer literatura protestante". Ou seja era uma censura ativa visando "proteger" as mentes de jovens religiosos com a finalidade de não terem a sua fé solapadas por outras crenças diferentes das suas.
Aí vem a reflexão posta na cabeça desta postagem: se permanecermos "seguros" lendo só discursos e narrativas com as quais concordamos e estamos familiarizados seja o modo mais seguro e abrangente de crescimento pessoal ou não?
Outro caso como fonte de reflexão é o premiado escritor português José Saramago em uma entrevista reveladora da ainda ao Jô Onze e Meia no SBT. Um ateu confesso e quase inimigo de Deus em suas posteriores declarações após os seus noventa anos, ao ser perguntado por uma repórter se mesmo frente a uma doença terminal se ele Saramago não creria em Deus ele responde irônico: "E por que deveria?"
Eu pessoalmente não concordo com a não crença de Saramago, mesmo porque é uma não crença mais presunçosa, atrevida, provocadora do que o ateísmo do escritor, historiador e filósofo Pondé. O segundo se diz ateu pela "incapacidade de sentir uma fé" e não por uma oposição pressupostamente racional à fé em si.
Na entrevista em questão, Saramago, deixa transparecer a mim que a sua anti-fé ou seu ateísmo resulta de uma confusão, vários erros de percepção entre as quais, a confusão entre a falha ética dos homens, a falha religiosa, em particular do catolicismo romano, dos reais fatos históricos e a crença num certo tipo de teoria da conspiração, globalismo, pobreza, imperialismo, etc.
Ou seja: Saramago crê ou não crê em muitas coisas opostas a mim mesmo mas mesmo assim há muitas coisas que posso aprender com ele, posso e devo sobre atitudes louváveis quando ele se expressa sobre coisas aparentemente pueris como a calvice, a idade, o trabalho na velhice, os prêmios, quanto a contribuição que cada de nós pode dar a humanidade,etc. Ou seja separar o que deva ser antropofagicamente aprendido e o que deva ser por algum motivo descartado é e sempre será um desafio pessoal, solitário e inseguro. Mas é exatamente este o processo da vida humana. Duas pessoas jamais são iguais nem pertencendo às mesmas instituições, conjunto de crenças, atitudes, valores, soluções, etc.
A ignorância não consiste em total segurança para a segurança mental bem como a máxima informação pela informação também não o é.
Deve se ler e ouvir de tudo e todos?
Sim e não.
Uma seleção errática pode tanto selecionar autores e textos benéficos como maléficos entretanto como a literatura por sua natureza é sempre mais subjetiva que objetiva é sempre possível saber que um livro de centenas de páginas assevera ou defenda como um pequeno texto ou poema. Perceber de antemão a síntese de algum pensamento já indica se vale a pena lê-lo todo ou não.
Finalmente, contrariamente, ter contato com argumentos contrários aos seus não representam por natureza a destruição das suas convicções. Se as suas próprias convicções forem coerentes e com base sólida a bobagem do seu oponente pode inclusive fortalecê-la ainda mais.
Ou seja não passa de falácia a afirmação de que narrativas diferentes das nossas possam destruir natural e efetiva todas as nossas mais sólidas convicções.
É verdade que a melhor capacidade de lidar com francas contradições não é a capacidade mais comum a maioria das pessoas, mesmo educadas e cultas.
Para muitas pessoas o simples fato de duas ideias opostas serem expostas lhes causa desastrosa confusão. Algumas perdem a capacidade de crer inclusive nas duas. Mas este é um outro assunto e uma outra reflexão.
Por Helvécio S. Pereira
Por Helvécio S. Pereira
Graduado em História da Arte, desenho e plástica pela EBA /UFMG
e em pedagogia pela FAE/UEMG
Professor de duas redes públicas em Belo Horizonte Minas Gerais e ex-formador da GPLI, ligada à Secretaria da Educação da PBH por cerca de seis anos.
Blogueiro desde 2011, professor, compositor, pintor, ilustrador e desenhista

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